A importância da Reserva de Emergência face às oscilações da Bolsa

Por Thiago Goulart – Editor do blog Valor Educação

Três temas circundam o título. E não são nada triviais no atual momento do mercado financeiro. Nos últimos dias, temos presenciado sucessivas quedas da bolsa, motivados principalmente pelo coronavírus. Daí a importância de falarmos sobre o colchão de liquidez nas carteiras de investimentos, chamados de reserva de emergência.

Se estávamos acostumados à expressão bull market – tendência de alta na bolsa – desde 2019, parecia-nos  estar fora dos dicionários jargões como circuit breaker  – um dispositivo de segurança para impedir volatilidade anômala quando o Ibovespa cai mais de 10% – e bear market – tendência generalizada de pessimismo, quando índices acionários caem 20% na comparação de seus picos mais recentes (ver gráfico abaixo).

Fonte: B3

No momento em que escrevo (16/3), o Ibovespa amargou mais um circuit breaker e já acumula uma queda (ver a linha em diagonal no gráfico) de 38% no ano de 2020. Este momento representativo da bolsa nos faz refletir, mas também nos serve para uma série de lições de educação financeira que devem ser relembradas.

Fragilidade econômica global

Primeiramente, vamos falar um pouco o cenário e o contexto em que nos encontramos. A volatilidade sempre fez parte do mercado acionário. Como efeito instantâneo, é preciso aprender e entender de maneira cautelosa que ações são investimentos de longo prazo. Agir dessa forma mitiga as oscilações que nos tiram muitas vezes o sono.

A calmaria está longe de ser a tônica nos tempos atuais. Vide a dupla crise formada pelo coronavírus e pela disputa do preço de petróleo que tem aumentado as chances de uma recessão global.

Vejamos rapidamente os dois casos:

1. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), por exemplo, parece estar longe de firmar um acordo na queda de braço entre a Arábia Saudita e a Rússia em torno do preço do petróleo, ainda que haja calmaria por breves períodos;

2. Quanto à economia global, esta já vinha sinalizando mesmo antes do coronavírus um elevado grau de fragilidade. É possível observar, até mesmo em países de primeiro mundo, um alto nível de endividamento público e privado, condições financeiras apertadas, entraves ao comércio mundial, mas também agitações sociais e tensões políticas.

Isto posto, nunca é tarde para relembrar: a produção mundial cresceu 2,9% em 2019 (ver gráfico abaixo), sendo o ritmo mais lento registrado desde a crise de 2008. Essas condições negativas contribuíram para acentuar o impacto da reação do mercado aos dois problemas mencionados: coronavírus e petróleo.

Fonte: Fundo Monetário Internacional (FMI)

Alguns analistas e mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) acreditam que o crescimento global pode ser menor este ano do que em 2019. No gráfico acima, podemos observar que o indicador das economias avançadas tende sensivelmente à desaceleração.

A tese geral é a de que a economia se tornou um lugar propício para as turbulências. E para quem é debutante no mercado não se deve esperar pela frente marolas no oceano, mas ondas que tendem a ser abruptas.

Por isso, mais uma vez: ações são investimentos que devem ser encaradas de longo prazo.

A pandemia e seus choques

Além do cenário econômico global instável, veio somar-se a ele uma pandemia inesperada. Na quarta-feira (11/3), a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que a estratégia de conter a proliferação do coronavírus não fora suficiente.

Assim, a propagação do vírus em diversos países tem provocado simultaneamente na economia ataques tanto pela oferta, quanto pela demanda. As duas estão entrelaçadas como não poderia deixar de ser. Vejamos:

Pela demanda: a queda de renda provocada pela crise e o medo do contágio, restringe a circulação de pessoas e reduzem os gastos dos consumidores.

Exemplo disso, é que desde meados de fevereiro os preços das ações das companhias aéreas nos Estados Unidos foram as mais afetadas pós-crise financeira global, em 2008. A queda dos negócios pode ainda reduzir os investimentos de empresas e provocar desemprego.

A fim de remediar e estimular a economia, os Bancos Centrais (BCs) mundo afora agem por meio do corte da taxa básica de juros. Contudo, boa parte dos BCs, em particular o Japão e a Zona do Euro, está de mãos atadas. Os juros de política monetária nessas nações bateram em zero ou estão negativos.

Por fim, é urgente fato de que os formuladores de políticas públicas precisarão implementar medidas fiscais, monetárias e financeiras às suas nações para que o caos não se alastre.

Reserva de emergência com inteligência financeira

A partir do breve cenário descrito sobre fragilidade econômica mundial e os choques advindos do coronavírus, como diminuir os riscos de um futuro cada vez mais imprevisível?

Resposta: utilizar a reserva de emergência com inteligência financeira.

Se bem apreendido pelos investidores no início de sua jornada em busca dos objetivos e metas financeiras, o fator estabilidade emocional aliado à redução dos riscos futuros podem estabelecer uma vida mais tranquila.

É daí que vem a relação entre as quedas da bolsa, o coronavírus e a importância de construir uma sólida reserva de emergência.

Planejamento financeiro

O primeiro passo para startar este colchão de liquidez é planejar-se financeiramente, criando estratégias que lhe permitirão tomar as melhores decisões, além de compreender que é uma excelente ferramenta de gestão do dinheiro.

No Brasil, a cultura da inteligência financeira tem se difundido aos poucos, mas ainda estamos distantes do ideal. Ainda presenciamos, por exemplo, muitas pessoas que lidam com o tema dinheiro como um tabu. Outros precisam recorrer a empréstimos bancários com juros extremamente altos, financiamentos etc. A reserva tem o propósito de eliminar esse ciclo vicioso.

Em última instância, caso nada aconteça, será apenas uma parcela da carteira de investimentos que estará alocado em um investimento conservador e protegido.

Isso significa que as pessoas não estão juntando dinheiro, mas também estão com as contas desorganizadas e com muitas dívidas pela frente.

Quando não se tem uma reserva de emergência, tanto o presente quanto o futuro ficam comprometidos e são cada vez mais incertos. Esse é um dos erros que precisamos evitar.

Valor da reserva

A conta que você deve fazer para chegar no melhor número de reserva é multiplicar por 6 o valor mensal dos seus custos.

Exemplo 1:

Supondo que você precise de R$ 2 mil ao mês para se manter com conforto. Neste caso, seu fundo precisa ser de 6 meses, ou seja, R$ 12 mil no total.

Como estamos falando de valores que precisam ter liquidez, ou seja, precisam ser facilmente resgatados em caso de emergências, é preciso optar por investimentos que sigam esse perfil.

Exemplo 2:

Veja a imagem abaixo.

Onde aplicar meus recursos de emergência?

As principais características de uma aplicação adequada para a reserva de emergência, são:

. Segurança

. Liquidez

. Baixa volatilidade

Dentre as principais aplicações em renda fixa, aqui no Brasil, para construção da reserva são:

. Tesouro Direto Selic

. Fundos de Investimentos com prazos de resgate curtos (D+0 ou D+1)

. CDB com liquidez diária e rendimento de mais de 100% do CDI.

Em todos os casos citados, os investimentos rendem ao menos a taxa básica de juros, a Selic, que equivale aos 100% do CDI. Na prática, o seu rendimento vai render junto com os movimentos da economia.

O ideal é fazer aplicações periódicas conforme sua capacidade financeira até atingir o valor almejado. E claro, quanto maior a aplicação mensal, mais rápido será o processo de formação da reserva de emergência.

Conclusão

O momento atual pode nos servir de reflexão. Para quem não lida com o mercado diariamente, sei que não é fácil darmos conta das nossas atividades cotidiana e, ao mesmo tempo, estarmos atentos aos noticiários para compreender os movimentos do mercado e da economia global.

A questão que se coloca é que diante de movimentos disruptivos no cenário doméstico e internacional – caso de uma possível recessão, ampliada pelo coronavírus – e o mercado acionário – reflexos diretos na queda da bolsa – devemos nos prevenir cada vez mais por meio de uma construção sólida da reserva de emergência.

 

Thiago Goulart

Editor do Blog Valor Educação

>> Professor e jornalista pela PUC-SP com ênfase em economia.

e-mail: tgoulart@valorinvestimentos.com.br

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