Coronavírus e suas lições

Por Pedro Lang – Economista

O pilar da tese de investimentos em ações de qualquer um deveria ser a cabeça de longo prazo. Na verdade, para todos os tipos de investimentos deveríamos adotar essa abordagem.

Dois questionamentos:

  1. Por que quando olhamos para um imóvel, algo relativamente fácil de valorar, admitimos um horizonte de 4, 5 ou 6 anos? E, por outro lado, quando olhamos para uma empresa, um negócio, um organismo vivo cheio de excentricidades, pensamos em um investimento de curto prazo?

Isso não faz sentido algum.

  1. Por que quando vamos comprar nossa casa, carro ou mesmo celular, gastamos horas, dias, semanas e, às vezes, até meses, analisando a melhor escolha? E, por outro lado, quando vamos comprar uma ação tentamos reduzir a nossa análise à coisa mais fácil e rápida possível?

Tenho a impressão de que se as pessoas falassem em voz alta o motivo pelo qual as levou a comprarem ações, investido em fundos imobiliários e tentassem minimamente criticar o que foi dito, não fariam metade das operações.

E é aí que mora o problema.

Quando fazemos algo que temos pouca convicção ou que não traçamos exaustivamente todos os cenários e possíveis desdobramentos, no primeiro sinal de dificuldade ou de dúvida, fazemos a pergunta que deveria ter sido feita no início.

A semana que passou foi clara para nós, da mesa de renda variável, pois mostrou-nos a fragilidade do mindset dos investidores e, por consequência, sua falta de convicção.

Bastou o mercado cair um pouco mais de 6% da máxima histórica para que, muitas pessoas que estão investindo a pouco tempo em ações, começassem a querer vender suas empresas que, por impulso, foram compradas seguindo a análise dita fundamentalista.

Não consigo imaginar isso!

Imagine a seguinte situação:

Você compra uma farmácia no seu bairro.

Investe nela, faz uma reforma, negocia com seu fornecedor melhores condições de prazo e pagamento e, de maneira geral, se torna mais eficiente.

No mês seguinte, um concorrente do outro lado do bairro vende uma empresa da mesma qualidade que a sua, por 10% a menos do que o você pagou na farmácia.

Por que você aceitaria vender a sua farmácia pelo mesmo preço?

Outro ponto que me assusta muito é ver que os ditos investidores de valor falam em comprar ações na gigante queda de 3%, julgando ser uma grande oportunidade.

Não é assim que funciona. Repare bem!

A bolsa pode cair mais 15%, 20% ou 30% que tudo ainda vai estar normal, sem nenhuma grande mudança na regra do jogo.

Guarde sua reserva para oportunidades em momentos como esse!

Vai incomodar muito, vai ser ruim ver tudo caindo, tua grana diminuindo, mas se a sua premissa de investimento se mantiver intacta, o melhor a fazer é esperar.

Depois desse movimento de desespero todo, só posso concluir uma coisa:

O coronavírus não é a doença, é o sintoma do despreparo dos investidores.

 

Pedro Lang

Economista

>> Chefe da mesa de renda variável da Valor e especialista em Valuation pela Saint Paul Escola de Negócios.

e-mail: pedro.lang@valorinvestimentos.com.br

 

 

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