Economia de guerra! O falso maniqueísmo

Por Thiago Goulart – Editor do blog Valor Educação

Há um falso maniqueísmo entre Saúde e Economia. E a sociedade mais uma vez cai nesta questão. Não dá para separar um e outro. Diante do que vislumbramos do futuro próximo é fundamental agirmos. Primeiro, é preciso destacar que vivenciamos uma economia de guerra.

Epidemias e guerras como já escreveu o autor de ‘A Peste’, Albert Camus, sempre chegam de surpresa. E a batalha, agora, é contra a Covid-19.

Neste caso, o inimigo não é um adversário clarividente (exército/país estrangeiro), mas um microorganismo invisível. E os recursos em momentos como esse são destinados à batalha contra a pandemia.

Buscamos na história recente algo para compararmos, a fim de se tomar uma medida mais eficaz. Enfim, chegaremos a 2008.

Apesar da crise atual ser distinta, o foco busca atuar nos dois flancos complementares e, não, dicotômicos: a economia real e a redução do índice de contágio do coronavírus.

Saúde e economia andam juntas (1)

O exemplo disso está expresso no pacote emergencial de R$ 147,3 bilhões, anunciado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

O único ruído até o momento trata-se da MP 927 acerca da suspensão de contratos: o chamado lay-off. E, claro, o Congresso precisa ser célere em aprovar estas medidas.

O trajeto do pacote econômico contra-ataca duas frentes e, novamente, não há maniqueísmo, mas complementaridade:

  1. Proteção aos mais vulneráveis;
  2. Manutenção dos empregos.

Parte da verba será destinada à injeção de recursos na economia. Outra parte, no diferimento do pagamento de tributos e compromissos nos próximos três meses, o que deve dar fôlego e capital de giro às empresas.

Quanto à população mais vulnerável, o governo deve usar um “fast track” – mecanismos de flexibilização / agilizar processos – para reduzir a fila de pessoas que aguardam inclusão no programa Bolsa Família.

Em relação à manutenção dos empregos, o diferimento do FGTS ajuda as empresas que estão sem capital de giro e não é correto exigir que ela continue pagando.

Saúde e economia andam juntas (2)

E quanto à saúde?

O governo vai direcionar R$ 4,5 bilhões que estão no fundo DPVAT para reforçar o orçamento do SUS. Isso permite duplicar os recursos direcionados ao Ministério da Saúde para enfrentar a crise do coronavírus.

Aliás, o governo também reduziu à zero o Imposto de Importação de 67 produtos de uso médico hospitalar. Da mesma forma, os produtos importados para combater os efeitos da doença também serão desonerados do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

Pelo lado das reformas estruturantes, já que não há espaço fiscal, é importante aprovar três projetos, a fim de melhorar as condições de enfrentamento aos efeitos do coronavírus e o choque externo. São eles:

. O pacto federativo – abre espaço fiscal para adotar medidas de enfrentamento à crise;

. A privatização da Eletrobrás – isso permitirá incluir R$ 16 bilhões no orçamento;

. E o Plano Mansueto – este ponto ajudaria a fortalecer a situação financeira de Estados e municípios.

O papel atuante do Banco Central

O Banco Central anunciou uma nova rodada de medidas que aumenta para R$ 1,2 trilhão o volume de recursos injetados no sistema bancário e libera R$ 102 bilhões em requerimento de capital das instituições financeiras.

O pacote visa manter o fluxo de crédito no sistema bancário para combater os efeitos da crise do coronavírus. Como proporção do PIB, o pacote representa quase cinco vezes o que foi implantado na crise financeira de 2008 (um total de R$ 117 bilhões ou 3,5% do PIB). As medidas atuais representam 16,7% do PIB.

Economia global, atacada pelo coronavírus

O Banco Central aposta que o sistema financeiro será capaz de fazer com que a liquidez injetada chegue ao setor real da economia. A preocupação com a manutenção de altos índices de liquidez e em preservar uma boa margem de capital está afetando as taxas cobradas pelos bancos aos tomadores finais de crédito.

Esta é a principal barreira para que empréstimos cheguem a empresas e famílias, superando eventuais preocupações com o risco de crédito e o custo do dinheiro determinado pela taxa Selic.

Outra aposta é que, nesse momento, essa injeção de liquidez tenha efeito mais forte nas taxas de juros e na disponibilidade de recursos do que uma eventual flexibilização monetária adicional.

O FED segue a mesma linha, só que de forma mais robusta, agindo nos mercados de crédito para evitar que o aperto de liquidez se transforme em crise de solvência para as empresas. Esses esforços agressivos serão postos em prática nos setores público e privado para limitar a perde de empregos e de renda.

Washington DC, Federal Reserve

Mais uma vez, fica claro que há um falso maniqueísmo entre Saúde e Economia. Ambos são complementares, ambos são essenciais para a vida em sociedade.

 

Thiago Goulart

Editor do Blog Valor Educação

>> Professor e jornalista pela PUC-SP com ênfase em economia.

e-mail: tgoulart@valorinvestimentos.com.br

 

 

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