Investir é tomar decisão: a vulnerabilidade no processo decisório

Por Thiago Goulart – Editor do blog Valor Educação

Uma das características comum à espécie humana é indagar sobre o seu futuro, na tentativa de controlá-lo. No entanto, há um paradoxo inerente a isto. Também sabemos que o futuro é incerto e que dominá-lo está presente não no nosso, mas no mundo dos seres divinos/mitológicos.

Este paradoxo gera um efeito que nos faz refletir sobre como mitigar os riscos futuros. Quando se trata do mundo dos investimentos, isso faz total diferença no momento em que o investidor terá de tomar suas decisões.

Pensar no amanhã e controlar decisões podem não ser algo que se faça naturalmente. Todavia, se buscarmos apoio na área das finanças comportamentais que estudam as ilusões cognitivas dos investidores, poderemos entender como tomar boas decisões e nos tornarmos menos vulneráveis aos princípios que guiam nossas mentes.

Desejo imediato

Muitos investidores são acometidos pelo Efeito Manada, ou seja, guiar-se não pela estratégia ou planejamento financeiro, mas tomar decisão por impulso e sem o conhecimento necessário a uma tendência em que vários outros investidores estão fazendo.

Neste caso, a frustração pode ser grande devido ao desejo imediato. As tendências comportamentais no mundo dos investimentos podem se refletir quanto à maior facilidade em perceber recompensas imediatas.

Exemplos disso podem ocorrer quando somente é observado:

. a performance exitosa de um determinado fundo de investimento olhando para a rentabilidade pretérita. Isso não é garantia de que no momento da realização do aporte financeiro (presente) para frente (futuro) teremos o mesmo sucesso da performance passada. Equipe, gestores, premissas e racional são, neste caso, relevantes;

. a valorização substancial do papel de um ativo acionário em um curto período. Ou mesmo, entrar na bolsa seguindo o Efeito Manada via recordes do Ibovespa. Aqui, as ações das empresas listadas – principalmente as smallcaps –  devem ser compreendidas como investimento de longo prazo, diminuindo a sensação de stress gerada pela intensa volatilidade no curto prazo.

Recompensas no longo prazo

Por outro lado, temos dificuldades em reconhecer recompensas no longo prazo. Pensar em ganhos no longo prazo exige um adiamento do desejo imediato, por meio de uma análise mais cuidadosa, precisa e consistente das situações.

Exemplos disso podem ocorrer quando deixamos de lado:

. a Previdência privada como fator de proteção, independência e qualidade de vida na velhice;

. o planejamento sucessório a partir de estratégias empresariais de sucessão. Este é um caso fundamental para perpetuar o patrimônio que se construiu em vida;

. a diversificação do portfólio de investimentos;

. a compreensão de que investir em ações é investir em empresas. Nesse sentido, o exercício de questionar-se como ela estará nos próximos anos, além o setor de mercado em que atua são pontos importantes para mitigar possíveis riscos.

Contextos e situações

O livro “A cabeça do investidor”, da professora de psicologia econômica Vera Rita de Mello Ferreira, explica o quanto podemos ser afetados pelas ciladas da mente ao investir.

A professora criou um quadro interessante que nos ajuda a pensar sobre os contextos e situações que podem nos causar prazer ou frustração no processo decisório do investidor.

ADORAMOS

DETESTAMOS

Alívio de tensão e gratificação imediatos

Perdas e faltas

Desconsiderar consequência

 

Cenários desconhecidos, incertos e ambíguos

Acreditar que tudo está bem e que seguirá assim eternamente

Reconhecer que erramos, que somos limitados e que temos aspectos destrutivos

Ganhar (tudo e qualquer coisa)

 

Tudo o que contraria nossas crenças, expectativas e desejos

Tudo o que combina com o que acreditamos

Ficar de fora

Ter companhia (inclusive para errar junto)

Considerar o longo prazo

Ser aceitos e sentir que pertencemos (a um grupo ou situação)

Pensar e tomar decisões

Por fim, lembre-se sempre:

Tomar boas decisões torna-se também um desafio de controlar as próprias emoções, pois nem sempre aquilo que provoca prazer significa a melhor escolha no mundo dos investimentos.

Até o pós-carnaval!

Thiago Goulart

Editor do Blog Valor Educação

Professor e jornalista pela PUC-SP com ênfase em economia, tendo atuado como repórter político na Câmara Municipal de São Paulo.

e-mail: tgoulart@valorinvestimentos.com.br

 

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