Memórias do último bullmarket (2002-2008) e reflexões sobre o atual ciclo

Por Andre Motta – Especialista em Investimentos

 

A virada do século aconteceu num período complicado para economia mundial. Pipocavam crises ao redor do globo entre o fim dos anos 90 e início dos anos 2000, ou seja, a incerteza estava sempre presente.

Tivemos os Tigres Asiáticos, a Rússia, a maxi-desvalorização do Real, Argentina – sempre em crise –, o atentado ao World Trade Center etc. Fatos como esses para dizer o seguinte: volatilidade não faltava aos mercados.

No front interno, ainda fomos brindados com o apagão em 2001 e com a eleição presidencial de 2002, o que levou o Ibovespa aos 8.224 pontos em outubro de 2002, acumulando mais de 50% de queda em relação ao pico verificado em março de 2000.

2003 foi o ano da redenção. 93% de alta apurados após o Presidente Lula tomar posse e manter as bases que herdou do Governo Fernando Henrique. A queda do prêmio de risco que os preços das ações embutiam foi brutal afinal, até tomar posse, o discurso do nosso ex-presidente não era nada favorável ao mercado.

Durante as eleições vimos o dólar bater os R$ 4,00 pela primeira vez e a taxa Selic ser elevada para 26% a.a. por Henrique Meirelles na primeira reunião do Copom após a posse. Havia motivos para a bolsa estar tão “barata” ao fim de 2002. Quem acreditou no Lulinha paz e amor da campanha e apostou na sua moderação no poder se deu muito bem na ocasião.

Em conjunto com as medidas implementadas pelo Governo, austeridade fiscal, algumas reformas, expansão do crédito, vimos o mundo acalmar. As crises tão frequentes nos anos anteriores arrefeceram e a China deu as caras com um apetite voraz por commodities, resultado uma disparada nos preços do petróleo, do aço, do minério de ferro, da celulose, que impulsionaram uma forte onda de investimentos por todo o País.

A construção civil acelerou, a economia voltou a crescer e vimos o Ibovespa bater os 74.000 pontos em maio de 2008, com Vale e Petrobras despontando como estrelas e vendendo a falsa impressão de que aquele ciclo de alta seria para sempre.

No entanto, o caminho não foi tão fácil para quem operava ações neste período. Entre 2004 2008, a bolsa brasileira teve 5 realizações intermediárias superiores a 20%. Havia grande desconfiança da sustentabilidade do crescimento mundial e até onde iria o apetite por commodities na China. Logo, qualquer onda de notícias negativas era motivo para entrada de força vendedora que derrubava fortemente os mercados. Ou seja, quando o ânimo melhorava e o otimismo tomava conta, uma ducha de água fria aparecia, derrubando os preços e minando a confiança.

Aos mais experientes isto abria janelas excelentes de incremento de posições. Contudo, para os novatos era o terror, o terreno ideal para se praticar o comprar na alta e vender na baixa. Não por acaso, após o crash de 2008 muitos abandonaram o mercado quase que em definitivo.

É verdade que os volumes negociados na bolsa na época eram bem menores do que os de hoje e que o Ibovespa era dominado pelas empresas de commodities, bem mais voláteis do que os bancos, que hoje tem participação mais forte no índice.

Tivemos ainda os projetos do Eike Batista, as empresas X, que viriam a naufragar destruindo bastante valor nos anos que se seguiram. As taxas de juros, apesar de terem apresentado uma trajetória de queda durante o período, ainda se mantinham acima de 2 dígitos, o que também jogava contra uma tendência mais estável na bolsa.

 

O bullmarket atual

 

O bullmarket atual vem se mostrando bem diferente. O impulso externo é bem menor, não temos um ciclo de valorização de commodities empurrando o Ibovespa e as altas também se mostram menos intensas.

Este ciclo iniciado em 2016 já dura por volta de 1050 dias, com aproximadamente 220% de valorização. Neste mesmo período de dias do ciclo passado, acumulávamos aproximadamente 380% de alta sobre a mínima de out/2002.

No entanto, não verificamos grandes realizações como naquela época. A volatilidade tem sido menor e a única grande realização aconteceu na greve dos caminhoneiros em 2018. Isto favorece a alocação em bolsa e torna o caminho menos assustador para quem inicia, agora, as operações em renda variável.

As taxas de juros, na mínima histórica, geram um fluxo grande de recursos para a bolsa, que se intensifica à medida que as ações mantêm sua tendência de alta, ou seja, parece haver uma retroalimentação de expectativas positivas, que acaba sustentando as cotações em patamares elevados.

Todavia, há sempre de se ter ciência de que o futuro é incerto, cisnes negros não têm sido tão raros em nossa história, mesmo em ciclos firmes de alta como o verificado na primeira década deste século. Fortes realizações aconteceram e é normal que voltem a acontecer. O pior que pode acontecer ao investidor é não ter uma reserva de liquidez para aproveitar as oportunidades que surgem nestes períodos.

 

Andre Motta

*Especialista em investimentos

Engenheiro, pós-graduado em Finanças, com Mestrado em Administração, aprovado nos exames da ANCORD, APIMEC (CNPI-T) e ANBIMA (CPA-20).

e-mail: andre.motta@valorinvestimentos.com.br

 

 

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