O atual momento de crise e a sua carteira de investimentos

Por Davi Lelis – Especialista em Investimentos

 

O objetivo maior desse artigo é trazer possibilidades sobre como uma carteira de investimentos pode se comportar a partir dos diferentes cenários futuros, neste momento de crise – coronavírus.

Como benefício, é provável que você, investidor, fique mais tranquilo com as possíveis variações de seu portfólio a partir de agora, sabendo que boa parte do seu capital investido está protegido e diversificado.

Antes de começar a falar dos ativos, vamos a um panorama geral do momento que estamos vivendo.

O Vírus

Ao fim do mês de Janeiro, os primeiros casos do novo corona vírus foram identificados na província de Wuhan, na China. A transmissão do vírus seguiu um padrão exponencial. Contudo, só entrou em alerta perante as autoridades em escala internacional, a partir do mês de fevereiro.

No Brasil, só sentimos esse impacto de maneira mais forte, a partir do dia 21 e, principalmente, após o feriado do carnaval, em que a bolsa permaneceu fechada, reabrindo em queda vertiginosa.

Por que isso aconteceu?

Primeira consideração: a bolsa de valores (B3) é regida por expectativas. Vejamos abaixo.

Empresa multinacional e empresa familiar

Imagine que duas empresas são oferecidas para que você as compre. Uma, é multinacional conhecidíssima, referência no mercado e muito confiável. A outra, um empreendimento familiar, com pouco ou nenhum marketing, que começou a fazer sucesso na cidade onde você mora, pois a qualidade de seus produtos é igual ou até melhor do que os da multinacional.

Assim, a lógica e a probabilidade é que você aceitará pagar um preço maior pela empresa conhecida e um preço menor pela desconhecida. Não é o caso de empreendimento familiar ter um serviço ou produto de qualidade ruim, mas porque você tem praticamente certeza que a multinacional irá render bons lucros, sendo que a empresa menor seria quase uma aposta, podendo ser um negócio de sucesso ou um fracasso.

Investindo na Bolsa

Quando investimos na Bolsa, o mecanismo é semelhante ao descrito acima. A cotação das empresas na Bolsa – as ações – é uma forma de trazer a valor presente – no dia de hoje – o fluxo de caixa projetado das empresas e a expectativa de retorno que ela dará.

Dessa forma, por mais consistente que seja a empresa que façamos o investimento, qualquer fato que traga dúvidas sobre o futuro ou incerteza sobre como será esse fluxo jogará os Preços para baixo. Mesmo que a empresa não tenha perdido Valor.

O que vemos no atual momento é uma volatilidade já vista em 1987. O fato em questão culminou na Black Monday – um evento, em que a bolsa americana caiu 22,6% em um dia.

Isso aconteceu devido a um crescimento não saudável das companhias americanas que faziam de tudo para abocanhar rivais, se alavancando e emitindo junk bonds – títulos de dívida de elevado risco – para captar recursos.

Esses títulos eram conhecidos como títulos podres justamente porque os investidores acreditavam que possuíam baixo risco. Porém, num olhar mais detalhado, possuíam na verdade, alto risco de crédito, ou seja, o famoso calote no mercado financeiro, e não havendo garantias.

Apesar da volatilidade ser semelhante, o problema, dessa vez, é muito diferente.

Entendendo a atual crise

A crise atual não aconteceu devido ao endividamento exacerbado das empresas, ou pela emissão de títulos podres e enganosos. A atual crise aconteceu devido à incerteza que o novo corona vírus – COVID19 – trouxe para as bolsas e economias mundiais.

Como a Bolsa é pautada nas expectativas, sentimos essa forte queda. Por outro lado e de certa forma, podemos considerar esse cenário até positivo.

Assim que vacinas forem desenvolvidas, o cenário se aproximar de uma normalização e o afastamento social fizer efeito, os investimentos e os mercados globais reagirão positivamente.

E quando isso vai acontecer?

Ninguém possui a resposta exata, mas podemos analisar de forma precisa e correta, utilizando a estatística e os dados a nosso favor.

Sabe-se que o vírus tem um contágio exponencial. Após o ápice do surto, a transmissão tende a decair, como podemos ver nos dois gráficos abaixo.

 

Fonte: JP Morgan

Acredita-se que a China já tenha passado do ponto C, ou seja, onde visualizamos a rápida queda da confirmação de novos casos. Iran e Itália, por exemplo, se aproximam do ponto B. Já o Brasil está no ponto A.

Dessa forma, sabe-se que muita gente ainda será infectada. Os noticiários tendem a repercutir o fato, focando os grupos de risco, então contaminados. Até o momento (22/03), existem 25 mortes confirmadas no Brasil, mas esse número tende a aumentar muito.

O banco JP Morgan fez uma projeção que, segundo o base case de sua análise, registraríamos cerca de 20 mil casos no Brasil, com pico por volta do dia 14 de abril.

E a bolsa deve cair cada vez mais, proporcionalmente, conforme forem confirmados mais casos?

A resposta é não. A Bolsa, como visto, precifica as expectativas, ou seja, adianta os movimentos. Se já é sabido que a contaminação segue essa curva em formato de sino e que, após o surto, há uma queda no número de novos casos, acredita-se que a Bolsa já precificou muita coisa do que ainda está por vir.

Podemos perceber isso pelo impacto que já teve o vírus nos outros países, como é o caso da China.

Como se proteger em momentos como esse?

Existem várias formas de proteção de investimentos. Pode-se comprar, por exemplo, proteção de carteira com derivativos, como um seguro de carro. Compra-se ouro, fundos com exposição em dólar, fundos no exterior etc. Mas a melhor proteção sempre será uma boa diversificação nos investimentos.

Se fizéssemos sempre a proteção por derivativos, seria muito oneroso para a carteira de investimentos e a chance de prever um evento como esse para fazer a proteção logo antes é baixíssima.

No caso de ouro e dólar, os dois ativos já atingiram preços muito elevados, não sendo uma solução barata para diversificação no momento.

Então, uma carteira que tenha renda fixa, fundos multimercado, ações, inflação, juros e moedas, provavelmente estará bem protegida e sentirá essa queda em apenas algumas dessas “caixinhas” de investimentos em diferentes magnitudes.

Junto à diversificação, comprar boas empresas, com bons fundamentos e com boa saúde financeira, é sempre importante, bem como estar alocado com os melhores e mais tradicionais fundos e ter um acompanhamento de um especialista.

O que esperar dos próximos meses?

A atual crise tem um aspecto que devemos nos atentar. A chamada Demanda Reprimida. Isso quer dizer que, aqueles que estavam com dinheiro para viajar, por exemplo, neste momento guardam o dinheiro, para depois realizar a viagem dos sonhos.

Outro exemplo: pessoas que pensavam em trocar de geladeira ou mesmo reformar a casa deixarão para depois. Fábricas que diminuíram a produção também terão que compensar as entregas.

Essa demanda que não foi exposta agora será exposta quando a situação começar a se resolver, impulsionando a economia e o mercado. É o que chamamos de Efeito Mola: quando se estressa muito para um lado, geralmente há um efeito forte também para o lado oposto. Isso já foi observado diversas vezes no Ibovespa, e dessa vez não será diferente.

Não se pode prever exatamente quando isso irá acontecer. Mas existem dados históricos de outras crises já ocorridas, como as seguintes:

. Ataque às Torres Gêmeas – Setembro de 2001

– Queda de -27,9% em 11 dias

– Recuperação de 52% em 82 dias

– Saldo final: +9,6%

. Crise de 2008

– Queda de -45,12% em 31 dias

– Recuperação de 76% em 150 dias

– Saldo final: -3,4%

. Delação de Joesley Batista – Maio de 2017

– Queda de -12,17% em 2 dias

– Recuperação de 26% em 86 dias

– Saldo final: +10,6%

. Greve do Caminhoneiros – Maio de 2018

– Queda de -20,24% em 25 dias

– Recuperação de 40% em 165 dias

– Saldo final: +11,6%

 

Nos próximos meses, existirá uma volatilidade grande. Será um sobe e desce intenso. A Bolsa deverá apresentar grandes quedas e grandes altas nos próximos dias, mas na linha do que aconteceu com outras crises, acreditamos que em questão de meses, haverá uma considerável normalização dos mercados e dos investimentos.

O tempo exato para o retorno a patamares anteriores é impossível e imprudente se tentar estimar. Mas, como todas as outras crises, essa também passará.

O que fazer a respeito?

A ponderação que se faz é: estando em seu limite máximo de alocação em renda variável, com uma carteira diversificada em vários tipos de ativos, é preciso paciência e esperar a turbulência passar.

Saiba que o problema das crises do mercado de ações, não são as quedas. O grande problema acontece quando pessoas alocam determinado capital que iriam precisar e acabam resgatando em um período de baixa.

Se analisarmos a bolsa em períodos de 4 anos em 4 anos, precisaremos que há 25 anos, não haveria nenhuma dessas janelas de observação, em que os investidores sairiam perdendo dinheiro.

Quem teve baixa, foi quem resgatou antes do tempo de maturação. É como pegar um broto de feijão do pé e dizer que foi um fracasso. Não se deve enxergar dessa maneira, pois, como o broto, o investimento demanda seu tempo de maturação para chegar ao objetivo de rentabilidade.

Se você já estava de olho em aumentar a posição em ativos de renda variável e achava que os preços estavam caros e ainda não chegou na sua alocação máxima recomendada nesse tipo de ativo, uma dica importante.

Se pensarmos por esse viés, agora pode ser uma excelente oportunidade de comprar barato e surfar uma possível e expressiva valorização para o longo prazo!

Isso, é bom deixar claro, somente se estivermos dispostos a sofrer o período de volatilidade que ainda marcará as bolsas mundiais e, principalmente a brasileira, nas próximas semanas.

Ações e volatilidade

Caso estejamos em dúvida ou ainda se permanecer o receio da volatilidade e das variações que ainda estão por vir, vale a pena estudar a possibilidade de entrar parcialmente, com metade ou um terço do total recomendado ao seu perfil de investidor.

O que está descrito aqui são algumas opções de investimento e não uma sugestão. Há inúmeras outras. No caso dessa estratégia, pode-se alocar o restante em um fundo caixa, por exemplo, aproveitando a oportunidade de aumentar a posição em ações ou fundos de ações quando o momento parecer mais propício e os índices de volatilidade tiverem diminuído. Não alocar em renda variável, nesse momento, também é uma forma de alocação mais defensiva.

Muitas pessoas tentam acertar o momento de maior baixa ou de maior alta, para vender ou comprar no melhor momento possível.

Acontece que essa estratégia é extremamente falha. Acertar um momento de máxima ou mínima absolutos é estatisticamente muito difícil.

O que dizem as universidades americanas

Estudos feitos por universidades americanas compararam duas estratégias.

. O Dollar-cost averaging (DCA): quando você aplica, digamos, 100 dólares todo mês ao longo de 40 anos;

. E a chamada Buy the Dip: estratégia em que se poupa 100 dólares todo mês, mas só compra em momentos conhecidos como “Dips”, que é um momento onde o mercado não está na maior alta de todos os tempos.

Para facilitar ainda mais, a comparação foi feita levando em conta que o investidor compraria no fundo mais baixo entre dois topos, como se estivesse prevendo o futuro.

 

Resultado:

O Buy the Dip performou pior do que o DCA em 70% das vezes. Isso acontece porque o Buy the Dip só funciona quando você sabe que uma crise severa está chegando e consegue aproveitar o timing perfeito.

Como mergulhos, especialmente os grandes, não acontecem com muita frequência no histórico de mercado americano – por exemplo, nas décadas de 1930, 1970, 2000 e agora em 2020 –, essa estratégia raramente supera o DCA.

E os tempos em que ele vence o DCA exigem um timing impecável. Perder o fundo por apenas 2 meses reduz a chance de superar o DCA de 30% para 3%. Podemos encontrar os dados no Departamento de Economia da Universidade de Yale.

Conclusão

Considerando tudo isso, podemos tomar uma decisão calma, estratégica e racional sobre o que fazer agora. Em momentos de crise, aprendemos muito e saímos com mais experiência para lidar com investimentos e com problemas em geral.

Conte comigo para percorrer esse caminho!

Davi Lelis

Engenheiro pela Universidade de Brasília

>> Assessor da Valor Investimentos e Especialista em Investimentos.

e-mail: dferreira@valorinvestimentos.com.br

 

 

 

 

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