“O que se está discutindo no Brasil não é se o país vai dar certo, mas o quanto conseguiremos avançar”, diz Zeina Latif

A economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, concedeu-nos uma entrevista exclusiva em que faz uma análise da economia brasileira do primeiro semestre de 2019 e aponta um futuro arrastado para o segundo.

No entanto, caso haja uma reforma da Previdência robusta que abata parte do déficit fiscal e o governo avance em reformas propositivas como a tributária, é possível haver crescimento do PIB, retomar a confiança dos investidores e gerar maior produtividade nas empresas brasileiras, de acordo com Latif.

Confira nossa entrevista!

. Pela perspectiva econômica, 2019 pode ser considerado um ano perdido no Brasil?

Zeina Latif Do ponto de vista do crescimento econômico, penso que sim. Estamos falando de uma economia praticamente estagnada e temos ainda que torcer para não ter nenhum acidente de percurso.

Imagina o seguinte: uma empresa que está operando no seu limite de margens e, por alguma razão, como paralisação, crise na Argentina, qualquer dessas questões faz a demanda cair. Esta empresa, que já está com dificuldade em se equilibrar, pode ser que seja levada a demitir em massa, pois está no seu limite.

A estagnação ou quase estagnação econômica embute riscos. Vamos torcer para que este ano seja um ano sem grandes ruídos no ponto de vista de choques, para que não tenhamos que correr riscos de ter um quadro ainda pior, com cheiro de recessão no ar.

Do ponto de vista do crescimento, é isso. Era para estarmos acelerando a economia e, no entanto, vamos crescer provavelmente menos do que o ano passado. Por esse aspecto é um ano perdido.

. O que poderia ser feito para reverter esse cenário?

Zeina Latif Primeiro, o governo precisa melhorar sua capacidade de articulação e diálogo no Congresso para acelerar as reformas. Ou seja, precisa ter um programa de governo mais claro. Sinto falta de ações mais coordenadas definindo prioridades, e não estou falando só do Ministério da Economia. Estou falando de agenda de Governo.

Sinto falta de uma maior coordenação pela via da Casa Civil e de ver continuidade dos esforços que foram iniciados no governo Temer. Contudo, já existe uma tendência de melhora – vamos aguardar – são alguns equívocos nas falas do próprio presidente que acabam gerando apreensão no setor produtivo.

Aliás, para o setor produtivo que está tão penalizado com o custo Brasil, não é fácil abrir o jornal e ver o presidente perder o foco naquilo que é essencial hoje, a economia. A queda de aprovação do presidente, do governo e a própria queda da confiança do empresário que vinha numa trajetória de alta estão em alguma medida relacionados às sinalizações do próprio presidente.

Há, nos últimos dias, um esforço do governo de mostrar a que veio, de mostrar que está focado nisso e melhorar sua articulação no Congresso para garantir a entrega de reformas.

Parece que o que está sendo realizado é pouca coisa. Não é. Quando olhamos para 2016, por exemplo. Tivemos a votação do impeachment em agosto, a aprovação da regra do teto, o Banco Central (BC) cortando juros em dezembro e, mesmo assim, conseguiu estancar a recessão.

Isso somente aconteceu porque o governo Temer mostrou que tinha um programa e demonstrou capacidade de articulação. Assim, aquele empresário que iria demitir, resolveu dar o benefício da dúvida, evitando a recessão. Isso é relevante para melhorar a confiança do empresariado.

. Em termos de investimentos, o que pode ser feito para garantir uma boa performance dos produtos financeiros e se proteger das instabilidades?

Zeina Latif Eu não sou estrategista, mas num cenário de incertezas acerca do que vai ser o restante do ano e os próximos anos, convém diversificar os investimentos.

Vou dar um exemplo: o mercado debate se o BC vai cortar ou não os juros. Há quem ache que seja até o contrário. Dependendo de como vai ser a reforma da previdência, o BC não vai cortar juros.

Dependendo de como a gente vai terminar este ano, talvez o BC suba os juros. A gente não sabe. Tem um grau de incerteza que a gente não pode garantir 100% que o próximo passo do BC é cortar juros.

O que se está discutindo no Brasil não é se o país vai dar certo ou não. A questão é o quanto conseguimos avançar. Será que vamos conseguir avançar bastante? Será que Bolsonaro vai ser tão reformista quanto foi Temer? Não sabemos.

A forma como vai terminar este ano, tende a definir os próximos. Se houver uma boa reforma da Previdência e, em seguida, maior clareza da agenda econômica, podemos nos surpreender com a capacidade de reação do país.

Contudo, ainda não dá para dizer que este cenário já está dado. Vamos ter que aguardar mais sinais. O Ministro da Economia, Paulo Guedes, tem convicção do que deve ser feito, porém o ministro não pode tudo.

 

. A reforma da Previdência tende a se desidratar quanto mais tempo levar para ser votada?

Zeina Latif Se a reforma sair da forma como foi proposta pelo governo, há um grande avanço da equalização de regras. Não vai ser pleno ainda, ou seja, tem que pensar que vão ter transições, o que é compreensível.

No entanto, é um passo importante para essa equalização de regras entre o setor público e o setor privado. O que acontece, hoje, é que no setor privado há aqueles que são a base da pirâmide que se aposentam por idade e isso varia. Pode ser, por exemplo, desde 55 anos – mulheres no campo – a 65 anos – homens urbanos.

Quem se aposenta por tempo de contribuição, é justamente o não pobre, ou seja, a aposentadoria chega muito mais cedo. É perceptível que já há uma diferença de regimes aqui, dependendo se a pessoa está aposentando por contribuição ou não.

É necessário instituir a ideia da idade mínima para todo mundo. No setor público, as regras variam. Exemplo, se o servidor entrou antes ou depois de 2003, ainda tem um diferencial caso tenha entrado antes de 1998 – não havia a idade mínima -, antes de 1993 – não havia contribuição alguma para inativos.

Quem entrou antes de 2003 tem idade mínima, mas ainda não tem teto. Por outro lado, estabeleceu o teto para quem entrou depois de 2013. É uma colcha de retalhos. Deve haver um esforço importante para ir, aos poucos, eliminando essas distorções. Não vai ser 100%, mas já é um caminho importante.

. Existe um cenário ideal para retomarmos o crescimento econômico? Além disso, qual a probabilidade de isso acontecer?

Zeina Latif Vai depender muito da agenda de reforma. O Brasil, no passado, conseguiu de forma capenga acompanhar o crescimento da economia mundial. Era o Brasil do governo Fernando Henrique e do governo Lula. Tínhamos um potencial de crescimento oscilando entre 3% e 3,5%, dado ao nosso estoque de capital, infraestrutura e qualidade de mão-de-obra. Aquilo que os economistas chamam de potencial de crescimento de longo prazo.

A partir do segundo mandato de Lula e, certamente, na gestão Dilma houve um grande desvio de rota, ou pior, uma contra agenda que gerou retrocessos e a instalação de uma grave crise. Tantos anos de equívoco de política econômica fizeram com que nosso potencial de crescimento reduzisse. Enquanto o mundo está discutindo a indústria 4.0, a nossa indústria está obsoleta.

Hoje, para acompanharmos o mundo, temos que nos esforçar sobremaneira. A reforma da Previdência é só o início dessa conversa, porque o quadro fiscal é instável. Num quadro fiscal como o nosso, se não houver um conserto, caminharemos para um cenário parecido com o da Dilma, ou seja, descontrole do câmbio, inflação, Selic e o próprio crescimento do PIB.

Sem um ambiente estável, qualquer política pública se torna mais limitada, até o Bolsa-Família. Com inflação elevada, por exemplo, o Bolsa-Família terá dificuldade de funcionar. É essencial virar a página da agenda econômica.

Se a questão fiscal estiver arrumada, conseguiremos discutir outras agendas. Crescimento de longo prazo é um tripé e as três pontas têm de caminhar juntas:

. O primeiro é melhorar ambiente de negócios. Hoje, o empresário praticamente não tem qualquer estímulo para investir no Brasil, com tanta regulação, mudança de regra, intervencionismo estatal e complexidade da carga tributária. O que eu mais escuto de relato de empresário é que “não dá para investir no Brasil”.

. O segundo tripé refere-se à abertura da economia. Precisamos tirar os empresários da zona de conforto de uma economia protegida. Claro que seria inadequado uma abertura abrupta, pois é preciso caminhar junto com uma agenda de combate ao chamado custo-Brasil.

O Brasil tem uma das economias mais fechadas do mundo, seja na adoção de barreiras tarifárias, seja na de não tarifárias, fragilizando a indústria. Com a economia fechada, o empresário investe menos, não havendo acesso a insumos de bens de capital. Tudo isso reduz a produtividade.

. Por fim, o terceiro pilar: a qualidade da mão-de-obra. Temos uma geração de jovens praticamente perdida, despreparada para o mercado de trabalho. Os números da educação são preocupantes. É preciso reverter urgentemente isso, para que possamos reinvestir em nossa capacidade de mão-de-obra qualificada futura.

 

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