O velho e a bolsa

Por Pedro Lang – Economista


“É vero”
que a nossa visão sobre a realidade está diretamente relacionada com as nossas experiências passadas. A minha percepção sobre os fatos e coisas que estão por vir sempre será pautada pelas coisas que já vivi e pelo grau de otimismo que vejo o mundo.

Sei muito pouco sobre análises com o viés da psicologia. Contudo, sei que boa parte dos mercados são pautados pela psicologia média dos investidores.

Por que disso?

Acabei de ler um livro, sobre o qual há uma boa correlação com o mercado de ações. E por incrível que pareça O velho e o mar, de Ernest Hemingway, tem estreito vínculo em relação à forma com a qual eu enxergo o mercado.

No dia a dia na mesa de renda variável, boa parte do tempo, trabalho explicando coisas extremamente técnicas para pessoas que não têm tanta intimidade com os temas que abordo, aqui, nesta coluna.

Por outro lado, tento criar certos gatilhos para facilitar esses conceitos a partir de coisas cotidianas.

Fundos multimercados

Uma das explicações que mais me traz orgulho quando as faço para os clientes é a comparação sobre os fundos multimercados – fundos que combinam diversos ativos e estratégias.

Sempre comento que eles são parecidos com o famigerado cachorro quente de final de festa, ou seja, são formados por uma série de ativos de mercados diferentes, que dificilmente serão objetos de operações de pessoas físicas normais.

Geralmente esses fundos têm os seguintes ativos dentro das carteiras: juros, renda fixa, coroa sueca, ações, moedas, títulos de dívidas do Zimbábue etc.

Reparem bem. Dentro o cachorro quente tem um purê de batata. Pois é, difícil acreditar!

Ao leitor que está chegando agora em minhas colunas, pode parecer que os meus textos não seguem uma linha de raciocínio bem definida. Mas tem.

Hemingway e suas as ações

Voltemos ao assunto principal.

Em sua obra, Hemingway retrata a luta de um velho pescador – Santiago – que há muito tempo não conseguia pescar um peixe sequer.

Depois de um grande jejum de 84 dias, Santiago fisga o maior marlim da sua vida. Interessante que, a despeito de anos após anos Santiago ser o melhor pescador da vila, por conta de um pequeno período sem conseguir sucesso, passou a ser considerado um pescador menos eficiente.

Não bastasse o fato de Santiago demorar a fisgar o peixe e passar mais de dois dias brigando com a criatura gigantesca e, ainda por cima, sozinho. No final das contas a batalha travada se torna em vão, porque inúmeros tubarões comem o peixe que não cabia dentro do barco.

A relação disso tudo com a forma que vejo a bolsa é simples.

Imagino o mercado muitas vezes como um ser que possui um comportamento sem padrões. Não consigo acreditar que as coisas tendem a se repetir, a despeito do que diz a análise gráfica tradicional, e que a melhor forma de lidar com o mercado é entender como se aproveitar da desordem.

Exemplo prático

Toda vez que abro minha plataforma de negociação ou abro uma demonstração financeira de alguma empresa, lembro logo do meu quarto desorganizado.

Pense no mercado como um monte de pessoas que acham que sabem o que estão fazendo e que também sabem o preço de tudo.

Além disso, a confiança de muitos agentes é tão grande, a ponto de entender sobre um milhão de coisas diferentes e serem especialistas de quase tudo.

Como sempre digo a todos que me ouvem: não somos mais qualificados do que ninguém, estamos apenas tentando entender para onde vai o lucro das empresas e quais serão as grandes vencedoras nos próximos anos.

Talvez tenhamos tanta propriedade para fazê-lo, quanto os pescadores que julgavam Santiago por não conseguir pegar um peixe por 84 dias.

Tudo é uma verdade absoluta até deixar de ser.

Pedro Lang

Economista

>> Chefe da mesa de renda variável da Valor Investimentos e especialista em Valuation pela Saint Paul Escola de Negócios.

e-mail: pedro.lang@valorinvestimentos.com.br

 

 

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