Qual é o percentual de retorno anual médio que você espera auferir com seus investimentos financeiros ao longo dos próximos anos?

Por Andre Motta – Especialista em Investimentos

 

2019 foi um ano muito bom quando o assunto refere-se ao retorno nos investimentos. A queda da percepção de risco, promovida pela aprovação da reforma da Previdência, aliada a uma inflação controlada e juros negativos em boa parte dos países desenvolvidos, criou um cenário macro quase perfeito.

Assim, pontos importantes como a queda da taxa de juros paga pelos títulos do Tesouro serviram de combustível para alta verificada nos fundos de inflação, fundos imobiliários, multimercados e na bolsa brasileira. Qualquer carteira bem diversificada conseguiu obter retornos bem superiores àqueles pagos pela renda fixa (CDI), que fechou o ano acumulando 5,9%.

Retornos em 2020 serão similares os de 2019?

Como reflexo deste bom resultado, temos notado um otimismo reinante entre boa parte de nossos clientes e uma expectativa de retornos similares para 2020, o que não será tão fácil.

O motivo disso, é que não há mais espaço para quedas relevantes nas taxas de juros. Logo, para se almejar obter resultados expressivos, será necessário um aumento da exposição a produtos mais voláteis e muitos investidores não estão preparados para o sobe e desce que se verificará em seu patrimônio aplicado neste caso.

Interessante observar que, um ano atrás, esta quase euforia não se verificava. 2018 foi um ano ruim e difícil não apenas no Brasil, mas ao redor do mundo e os ganhos médios acumulados das carteiras foram bem inferiores aos de 2019.

Dessa forma, as expectativas foram mais baixas e a aversão a produtos de renda variável um pouco maior.  Isso se explica por um viés comportamental: nossa mente tende a priorizar experiências mais recentes e a esconder as experiências negativas do passado.

Assim, toda a angústia da realização nos mercados durante a greve dos caminhoneiros e do período pré-eleitoral em 2018, já é uma lembrança secundária, amplamente superada pela alegria dos ganhos do último trimestre. Isto é perigoso.

Falsa impressão

A falsa impressão de que o passado recente seja um novo normal, nos leva a operar ignorando os riscos potenciais da renda variável. Na última semana, por exemplo, o temor pelo Coronavírus trouxe de volta uma pequena amostra de volatilidade e um aprofundamento da epidemia certamente teria impactos maiores sobre a economia chinesa e sobre o resto do mundo.

Hoje, ela está no nosso radar. Contudo, algumas semanas atrás ninguém a colocaria como risco de realização nos mercados uma epidemia virótica mundial.

O ponto é que o investidor comum em geral se guia pelo retorno passado na hora de projetar o futuro de suas aplicações. Esse mesmo investidor, não faz uma avaliação de cenários para verificar se os fatores que geraram determinado resultado ainda se fazem presentes, ou se uma nova realidade se apresenta com potencial mais limitado à frente.

Tempo vs. Retorno

Em meados do ano passado a gestora de recursos Schroders fez um levantamento, em que mostrava que os brasileiros esperavam obter um retorno médio anualizado de 14,9% pelos próximos 5 anos em suas aplicações financeiras, ignorando que naquele momento a taxa Selic estava em apenas 6,5%, bem longe das taxas de 2 dígitos tão comuns anos atrás. No mundo o número verificado foi mais modesto 10,7% a.a.

Outro aspecto relevante do estudo realizado pela Schroders, diz respeito ao tempo de permanência do dinheiro em uma determinada aplicação.

Enquanto nos Estados Unidos, Japão e Canadá os investidores entendem que pelo menos 4 anos são necessários para se auferir os retornos esperados em um fundo, o brasileiro está disposto, em média, a permanecer apenas 1,9 anos até mudar de aplicação.

O que também é um problema, visto que estudos mostram que fundos multimercados, em geral, levam de 2 a 3 anos para entregar retornos consistentes acima da renda fixa e fundos de ações devem ter horizontes de aplicações de, pelo menos, 5 anos.

Mudança estrutural no Brasil

Vivemos um momento de mudança estrutural no Brasil, em que os juros e os ganhos de capital tendem, na média, a serem menores do que no passado. No entanto, para a maioria a ficha não caiu. Bastou em 2019 a migração da renda fixa para a bolsa, para que o tão almejado 1% a.m. se materializasse novamente.

Este não é o nosso novo normal. Aconteceu em função de um cenário macro favorável que ainda pode durar algum tempo, mas não por muito tempo a mais.

O melhor a fazer é:

. Baixar as expectativas;

. Primar pela diversificação;

. Focar no longo prazo;

. E aprender a conviver com a volatilidade gerada pelos ruídos no curto prazo.

Teremos anos bons como 2019 e ruins como 2018. Todavia, num horizonte mais amplo, com um portfólio diversificado com qualidade, sempre teremos oportunidades para proteger nosso capital da inflação e ainda obter algum ganho de capital razoável.

Paciência e sangue frio serão grandes virtudes nos tempos que estão por vir.

Andre Motta

Especialista em investimentos

>> Engenheiro, pós-graduado em Finanças, com Mestrado em Administração, aprovado nos exames da ANCORD, APIMEC (CNPI-T) e ANBIMA (CPA-20).

e-mail: andre.motta@valorinvestimentos.com.br

 

 

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