Tamanho importa!

Por Andre Motta – Especialista em Investimentos

Não é novidade que vivenciamos uma grande migração de recursos aplicados da renda fixa para renda variável nos últimos meses. As baixas taxas de juros pagas nas aplicações tradicionais, aliado ao bullmarket no mercado acionário tem feito os fundos de ações captarem como nunca.

Assim, gestores habituados a lidar com uma carteira de centenas de milhões de reais, agora se deparam com o desafio de alocar volumes bem maiores, na casa dos bilhões, acendendo-nos um alerta.

Exemplo prático

Tomemos, como exemplo para compreender o fenômeno, um fundo que há 4 anos tinha um patrimônio de R$ 200 milhões. Suponhamos que seus gestores alocaram 10% deste valor em ações de uma determinada smallcap, que negocia em média R$ 10 milhões na bolsa diariamente.

O tempo passou e as cotações desta smallcap explodiram, decuplicando de valor. Ou seja, o impacto no fundo foi fantástico, as cotas valorizaram-se fortemente e este fundo começou a aparecer nos rankings dos mais rentáveis dos últimos 12 e 24 meses em publicações diversas.

Toda esta publicidade positiva atrai novos cotistas, mais dinheiro para o fundo, fazendo seu patrimônio saltar de R$ 200 milhões para R$ 4 bilhões.

Aí vem a pergunta: a gestão do fundo continua sendo a mesma?

Pode até parecer que sim, visto que a equipe continua a mesma. Contudo, a resposta definitivamente é um: NÃO!  Uma coisa é pilotar um kart, outra bem diferente um Fórmula Truck.

Baixa liquidez

Lidar com grandes volumes de dinheiro pode ser um problema no mercado brasileiro. Temos menos de 400 empresas listadas e poucas apresentam liquidez elevada, ou seja, o universo de companhias em que o fundo pode alocar seus recursos se reduz bastante quando este cresce muito.

Sem contar o fato de que, mesmo que ele encontre outra smallcap com potencial similar àquela que decuplicou de valor, fazendo do fundo um sucesso absoluto, esta hoje já não teria o mesmo impacto, pois a restrição de liquidez faria com que agora ela ocupasse apenas 1% da carteira e não mais os 10% de outrora.

Logo, esta valorização expressiva, agora, teria um impacto 10x menor nas cotas.

Gato por lebre

Há muita gente comprando gato por lebre, quando escolhe um fundo pelo seu desempenho passado sem atentar ao seu crescimento de patrimônio, tanto no caso de ações, quanto nos multimercados. Estes últimos forçam os gestores a começarem alocações em mercados em que não possuem grande experiência.

Uma coisa é ganhar muito dinheiro operando curvas de juros e câmbio no Brasil, outra bem diferente é se aventurar a fazer isso também nos Estados Unidos, Europa e Japão. Se falta liquidez aqui, o jeito é buscar novos mercados no exterior, não tem para onde correr.

No caso dos fundos de ações, quem obteve muito sucesso analisando e operando empresas de varejo e construção, vai ter de começar a entregar resultado, colocando Petrobrás, Vale, Itau, Bradesco e outras bluechips na carteira, pois o tamanho do fundo os obrigará a fazer estas alocações.

Será que os resultados serão os mesmos? Provavelmente não.

Conclusão

Logo, é importante analisar adequadamente o perfil do fundo no momento. Fundos muito pequenos têm maior dificuldade em encontrarem espaço e atenção dentro das companhias, para conversarem com CEOs e CFOs.

fundos muito grandes vão encontrar um universo menor de cias para alocarem o grosso de seus recursos. Assim, um fundo de patrimônio médio leva a vantagem de não possuir nenhuma das duas restrições. Vale atentar para isto na hora de montar o seu portfólio.

E mais uma vez: olhar apenas rentabilidade passada para escolher um fundo pode ser perigoso.

 

Andre Motta

Especialista em investimentos

>> Engenheiro, pós-graduado em Finanças, com Mestrado em Administração, aprovado nos exames da ANCORD, APIMEC (CNPI-T) e ANBIMA (CPA-20).

e-mail: andre.motta@valorinvestimentos.com.br

 

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