Valid (VLID3) – Tech sem ser tech, é valid?

Por Breno Bonani – Analista Buy-Side da VGR

 

Brincadeiras à parte (rs), Valid é uma companhia que tem como objetivo tornar o mundo um lugar mais independente e mais integrado. A companhia já possui 60 anos de existência. Foi fundada em 1957 por Thomas de La Rue, posteriormente adquirida pela American Banknote Corporation em 1993. Abriu seu capital no ano de 2006 na Bovespa e em 2010 a Banknote deixou de ser o principal acionista. Logo após esse último evento, a denominação social da companhia foi alterada para Valid Soluções e Serviços de Segurança em Meios de Pagamento e Identificação S.A.

E como ela pretende fazer isso e para quem?

Primeiramente, oferecendo soluções através de softwares de identificação, IoT (Internet das Coisas), possibilitando transações confiáveis e simplificando processos. E o seu público alvo são pessoas no geral e governos.

Essas são as duas perguntas fundamentais que todo investidor deve responder no momento de compreender uma companhia: qual tipo de problema ela tenta resolver e para quem ela tenta resolver.

TECH SEM SER TECH

A Valid tem tudo para ser a empresa do futuro. Ela atua em segmentos que são de extrema importância para otimização de tempo e melhora de resultado, inclusive, é bastante útil para governos. Que governo não vai querer ter com extrema precisão os dados de seus cidadãos?

Porém, hoje, a companhia ainda está longe de oferecer essas tecnologias. Se pegarmos todos os segmentos “techs” que ela atua, não dá 10% da receita total da companhia. Segundo a própria empresa, até 2022 ela espera que essas novas plataformas sejam 30% da receita total.

Essa é uma das formas de mitigar o risco do negócio que, hoje, sofre com riscos de regulações. Atualmente, a Valid é a companhia que emite seu RG, CNH, que imprime as provas do Enem ou ajuda a validar algum contrato da sua companhia.

Sendo o principal negócio dela emissão de RG e CNH, que representa 65% do EBITDA, 80% do Lucro Líquido e 30% da Receita. Além disso, a pessoa que fica no órgão público tirando foto, pegando assinatura e conferindo seus dados, é uma pessoa treinada e empregada da empresa.

Recentemente a mesma conseguiu a licitação para imprimir as provas do Enem. Ou seja, ganhou o direito de ser uma gráfica do governo (o que não é nada tech assim). Tiveram também um custo adicional, tendo que investir em máquinas e pessoas para esse novo projeto na planta de Sorocaba.

Logo, a Valid não parece tão “tech” ainda, não é mesmo?

seth meyers GIF by Late Night with Seth Meyers

 

IDENTIFICAÇÃO ARRISCADA

Seu principal negócio deu uma balançada após o presidente Jair Bolsonaro comentar que poderia ser prolongado o prazo para renovação de carteiras de motoristas. Pois bem, vale uma explicação sobre como funciona essa dinâmica entre a companhia e o governo.

Primeiro, os contratos são via licitações, esses contratos tem um período de 1-2 anos e podem ser renovados por mais 5 anos. A Valid possui 12 contratos (em alguns estados com 15-20 anos de atuação já) de emissão de carteira de motorista e possuem 80% de Market Share só neste segmento.

Acontece que muito provavelmente essa mudança vai passar e isso é ruim para companhia, pois gera queda de volume. Logo, a receita cai, pois agora demora mais para entrar (simples assim). E estamos falando de possíveis quedas de 20% do EBITDA e 22% de queda na receita de identificação (7% de queda na receita total da companhia).

Conversei com o RI da empresa recentemente e me informaram que o relator já fez algumas emendas para o Projeto de Lei e possivelmente com a volta do recesso do Congresso, poderá ser colocado em pauta para votação. É possível também que a companhia consiga negociar com o governo, talvez uma proposta que não migre todos de uma vez, mas só uma parcela, talvez por faixa de idade. No entanto, tudo é especulação no fim das contas.

Nos contratos mais recentes (como o de Minas Gerais) a companhia fez uma cláusula para ter um reajuste de custo mais flexível. Segundo a companhia, é um dos principais pontos onde eles conseguem mexer para não impactar tanto a queda da receita.

Esse é o ponto mais delicado de todo o case.

 

FUTURO

A companhia já tem também boa parte da sua receita advinda do exterior (45%), o que a torna um hedge natural para boa parte da sua dívida, que está atrelado ao dólar (60% da dívida total). Vale ressaltar que boa parte dos custos dela vem do exterior por compra de matéria prima, como papel e chips, muitos deles asiáticos.

Outro ponto importante: estão investindo em novas tecnologias interessantes, uma delas é a Agrotopus que faz rastreamento de lavouras cooperativas de café, a startup atende 12% da produção brasileira, é de extremo valor para o agricultor. Ela espera que em 5 anos a receita desse segmento seja 4% do faturamento total.

Outro investimento importante está em soluções de pagamentos, com a aquisição da Bluepay, que já tem um produto funcional, com pagamento instantâneo e atuando na transação. Porém, voltado exclusivamente para o B2B (empresa com empresa).

Um projeto relevante de solução é a SmartCity, que já está sendo implementada em São Caetano do Sul, no ABC Paulista. Essa tecnologia faz o cadastro completo e atualizado de todos os moradores do município e de quebra consegue monitorar via espaço aéreo os cadastros de imóveis do município (uma forma de melhorar a arrecadação do IPTU, por exemplo). Além disso, tem a biometria, como a ValidBIO, tem blockchain, tem IoT e por ai vai.

Entretanto, tudo isso que eu citei anteriormente só representa 9% da receita total da companhia atualmente… Longe de ser a mais tech de todas no presente.

CONCLUSÃO

Olhando para tudo que a companhia tem investido, fica uma pergunta na minha cabeça: qual será o próximo negócio que vai vingar na companhia? Será que todos? Será que só IoT?

Hoje, fica bastante complicado de responder essa pergunta. Sabendo que existe um risco regulatório que parece eminente e não sendo tão “tech” assim como ela tenta se vender, a companhia negocia a um múltiplo bem descontado em relação a qualquer outra companhia de tecnologia atualmente:

 

Por ser uma companhia com várias frentes (como, telecom, meios de pagamentos, identificação e etc), fica difícil de achar um único concorrente que faça exatamente as mesmas coisas para nível de comparação.

Mas 12,5x lucros e 7x EV/EBITDA para uma empresa que se coloca como “tech”, realmente é bastante atrativo e te coloca com uma margem de segurança bem confortável. Porém, o risco regulatório e a pouca representatividade da parte “tech” nas receitas me fazem ainda ficar receoso com o case.

 

Breno Bonani

*Analista Buy-Side da VGR

Administrador pela FAESA e especialista em valuation pela Saint Paul Escola de Negocios

e-mail: breno.freitas@valorgestora.com.br

 

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